Grande Português?
Ontem foi a final do programa de televisão Grandes Portugueses. Depois de alguma semanas a remexer no passado e a abrir feridas, a decisão foi, no mínimo, estranha. O grande vencedor foi António de Oliveira Salazar, o ditador do Estado Novo. Sim, ouviram bem: ditador.
Porque a ignorância sobre esta personalidade reina em Portugal, deixem-me apenas dizer que:
- Salazar começou como Ministro das Finanças e, depois do sucesso obtido com essa pasta (conseguiu equilibrar o orçamento de Estado, estabilizar a moeda e os preços e reduzir a, até então, preocupante dívida externa), chega em 1932, a chefe de Governo;
- com a aprovação de uma nova Constituição em 1933, é formado o Estado Novo, um regime autoritário semelhante ao fascismo de Mussolini;
- as graves perturbações verificadas nos anos 20 e 30 nos países da Europa Ocidental levaram Salazar a adoptar severas medidas repressivas contra os que ousavam discordar da orientação do Estado Novo;
- Salazar criou uma polícia política (PIDE), proibiu as oposições e impôs um partido único;
- tudo isto culminou a 25 de Abril de 1974, já depois da sua morte (1970), com a revolução dos cravos.
Estes são apenas alguns dos exemplos dos feitos de Salazar. Se fosse relatar todos os factos, acabaria por escrever um blog inteiro dedicado a tal pessoa. Resumindo e concluindo, e na minha singela opinião, Salazar só ganhou esta treta dos Grandes Portugueses porque conseguiu equilibrar as finanças portuguesas, feito que mais ninguém voltou a repetir. Porque, de resto, que fez ele? Inspirou-se no modelo de Mussolini (ditador italiano mais conhecido que a mula russa e o seu regime totalitário capitalista), prendia quem ousava abrir a boca contra ele ou contra o seu regime autoritário, ou seja, tolerância e liberdade de expressão eram coisas não-existentes. E agora, passados quase 33 anos, estamos todos cheios de vontade de voltar a um regime autoritário?
Para mim teria ganho Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que emitiu 30 mil vistos de entrada em Portugal a judeus, salvando-os, assim, de serem aniquilados por Hitler. Salvou vidas e morreu na miséria. Pelo menos não caiu da cadeira como o outro.
Fonte:
Vidas Lusófonas
António de Oliveira Salazar
Vale a pena ler este óptimo comentário deixado pela minha querida Natércia:
"Infelizmente o português tem memória curta e vive de fantasmas do passado. Até me admira que não tenha sido o Sá Carneiro a ganhar... Apenas posso dizer que lamento o resultado e que me sinto envergonhada... como revoltados se devem sentir os capitães de Abril se ainda forem vivos para testemunhar esta ignomínia! O Salazar pode ter equilibrado as finanças publicas, mas alguém perguntou à custa do quê e de quem? Quantos passaram fome? Quantos foram torturados só porque o vizinho invejoso o denunciava por puro despeito? Acho que todos se esqueceram da razão pela qual hoje vivem livremente... porque os meus pais e os meus avós viveram num regime onde ninguém podia falar abertamente. Sinceramente depois disto tudo, acho melhor o sr. Presidente da Republica cancelar as comemorações do 25 de Abril..."



5 comentários:
Infelizmente o português tem memória curta e vive de fantasmas do passado. Até me admira que não tenha sido o Sá Carneiro a ganhar... Apenas posso dizer que lamento o resultado e que me sinto envergonhada... como revoltados se devem sentir os capitães de Abril se ainda forem vivos para testemunhar esta ignominia! O Salazar pode ter equilibrado as finanças publicas, mas alguém perguntou à custa do quê e de quem? Quantos passaram fome? Quantos foram torturados só porque o vizinho invejoso o denunciava por puro despeito? Acho que todos se esqueceram da razão pela qual hoje vivem livremente... porque os meus pais e os meus avós viveram num regime onde ninguém podia falar abertamente. Sinceramente depois disto tudo, acho melhor o sr. Presidente da Republica cancelar as comemorações do 25 de Abril...
Pena que eu não tenho acesso a tal programação.
Tenha uma grande semana!
Bjos*
Naná,
nem eu diria melhor. Andei às voltas para dizer exactamente isso: como é possível uma coisa tão grave, como a falta de liberdade, ter caído tão depressa no esquecimento?
Alê,
ainda bem que não tens acesso a esta programação. Isto envergonha-me como portuguesa.
Pois é Sofia, ontem mesmo estava a falar com um amigo português e fiquei sabendo desta votação.
É triste mesmo, o povo não tem memória, mas não é só aí em Portugal (aqui na Espanha há quem idolatre a figura de Franco e no Brasil quem sinta saudades do vergonhoso regime militar. Parece ser que no final das contas, o que mais importa é ter pão barato à mesa, sem importar que isso possa custar a nossa liberdade ou não.
Beijo grande querida, até quarta escrevo um post, tá? :)
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